
Ao nebuloso escurecer, meus olhos serrados de cansaço se abriram lentamente em um dia escuro, frio e melancólico. A vontade de meus membros se mexerem ficava cada vez mais distante. Peguei o relógio, que fica depositado em um velho móvel, no qual de longe se vê as ranhuras impregnadas pelo tempo, ao lado de meu estábulo e me deparei com as primeiras horas do dia. Meu pensamento ambíguo e incrédulo já me atormentava. Eram 3 da manhã, do dia 15 de setembro, dia em que, há exatos dois anos, meu pai perdia a vida em meu colo. Só e triste. Um dia marcado pela exacerbação da pobre alma, insípida e calejada. Um dia marcado para nunca mais ser o mesmo.
Desde então, minha psíquica mente me atormenta. Desisti de pensar no quão difícil era evitar minhas visões e audições e resolvi me contemplar com o que tinham me destinado. E então pensei:
- Me suicidaram. Suicidaram-me para um mundo diferente, no qual não se morre, apenas aperfeiçoa-se a lunática mentalidade.
Assim, pus-me de pé. Arrastei-me até o lavabo. Meus olhos inchados de preocupação pareciam não mais abrir. Mas sabia que em algumas horas, podia não mais estar ali. Aproveitei então aqueles sofridos e deliciosos minutos de apreciação da vida. A vida que me consome, que me angaria, que me mantém como uma espécie em extinção. Percebi ser apenas um simples ser que pensa e reflete sobre os seus próprios insanos e lógicos pensamentos psicotraumáticos de suma importância. Declarei então em sábias palavras o meu ardor:
- Às vezes eu choro, choro por nada, choro por tudo. Pareço sentir o sofrimento do mundo, de uma criança sem estudo, de uma criança intelectual. Pareço sair do meu corpo, um corpo ativo, um corpo parado. A alma de um vivo em um corpo deitado.
Até o ponto de ônibus eu caminhei, sem olhar para nenhum dos lados. Um vazio e uma loucura alimentavam meu peito. Tinha medo do meu próprio caminhar e do sussurro ouvido a todo tempo. Um desespero que me rasgava o peito. De um certo modo, completamente perturbado.
De degrau em degrau, entrei em meu mais tortuoso inimigo. O ônibus. Um aglomerado de mentes alheias e uma malevolência da profunda energia habitada neste ardoroso ambiente. Sentei-me no primeiro e único banco perto do vidro e permaneci imóvel, olhando para frente. Para mim mesmo sussurrei o pensamento mais angustiado de toda uma vida. Peguei uma carta em meu bolso contendo as palavras de quem não mais queria viver e li em voz baixa.
“A sombra me persegue sob a névoa. Não consigo me mover. Sou incompreendido. Preso em um muro ou em meu próprio pensamento. Meus olhos já não fixam em algum lugar. Como a lua pára pra te olhar. Estes vilipendiados olhos doem, choram e imploram para que fiquem só. Não consigo me livrar do infortúnio calar. Sinto pessoas a me olhar como um animal devora a sua insípida carniça. Creio que irão matar-me. Sinto-me desprotegido, frágil, inútil. Sinto-me sem amor, sem dor e sem desejo. Já não sei o que fazer. Procuro a solidão para que minha trágica energia não contagie as pessoas. Para que meu olhar não cruze com os demais, assim terei meus próprios sentimentos. Meu próprio coração. Que a cada despertar encontra o silêncio. Estou surdo e cego, estou inválido. Me submeto ao inoportuno desespero. Ao incômodo calar. Viver agora dói. Não mais a quero”.
Uma carta suicida? Ou apenas uma carta de quem tem sentimentos mediúnicos interferidos pelo contato espacial e psicológico do desconhecido? Eu não sei.
Desci do ônibus pelas ruas do centro da cidade. Olhei para os maiores prédios e me imaginei despencando de mais ou menos 20 andares. Olhei para o lado, me deparei com uma pessoa sentada em uma pedra e reparei a árida angústia que medra em teu olhar. Os pés pareciam enfraquecidos, tuas ávidas mãos dóceis e calejadas seguravam um pedaço de pão, sujo e cheio de vermes. Mas essa pessoa precisa alimentar seus filhos. Como pensar em algo limpo e saudável? O suor escaldante e o silencioso olhar me fizeram desistir de pular do edifício. O desespero e a angústia de viver me proporcionam isso.
Segui em frente. Caminhei durante muito tempo, pensando em minha simples e dispersa trajetória de vida. A falta de estímulo e conexão com o tempo real era o princípio de minha angústia. Pensei estar no fim. Disseram que eu era anormal, estranho e sozinho. Parecia um louco autista. Andei mais um pouco e me comovi com uma triste senhora imóvel, em pé, de olhos fechados, apontados para o céu. A vi sorrindo como se não a quisesse. A sua mão estava em sua testa franzida e suada, como quem sua em um estado altamente febril. Abriu os olhos e, com um olhar insano de quem não precisa mais viver, fez-se uma lágrima descer lentamente, como um único adeus. Assim, esta triste mulher saltou-se na frente de um ônibus e para uma outra vida seguiu. Um outro plano espiritual que não mais este em que vivia.
Pensei inconformado em o que mais poderia acontecer de ruim para fazer com que não desistisse assim tão fácil de minha vida que, aparentemente, parecia normal. Rapidamente, desci a rua. Desesperado e chorando, achava que a desgraça e a morte estavam me perseguindo. Mas como correr de algo que estava buscando? Algo que eu mesmo aclamava e dizia ser o melhor para mim? Uma contradição vista de um lado obscuro. Vista de cima. Minha alma acabava de sair do corpo em movimento. Meu corpo frágil e transparente, suscetível a sentimentos malévolos e impuros. Um corpo que neste momento era de carne e osso e não de vida. Corri por entre as ruas, carros e transeuntes do centro da cidade. Parei em uma rua na qual um arco embelezava o incrível viaduto.
Sem nenhuma calma e com um medo agonizante, queria morrer para fugir da morte. Tomei coragem e subi no estreito pára-peito do viaduto antigo e sujo que resistia à cidade. Um viaduto que já embelezou e consagrou aquele lugar, como um símbolo, mas que ali estava desgastado, cheio de urina e fezes, depredado pela própria população, adquirindo um aspecto incrivelmente propício para a pior maneira de terminar uma vida.
Quanto mais gente chegava, mais eu subia e atingia o alto ponto do arco. Assustado, atônito e desfacelado, não entendia porque eu era assim tão atormentado. Olhei para baixo e vi o quanto a vida era frágil, e quantas pessoas ali paradas me viam sofrer. Quando, do outro lado, me deparei com minha alma sentada no arco, olhando com um olhar que se despedia, um olhar que eu nunca teria visto, a não ser nos últimos segundos de minha vida. Como se não quisesse, mais um passo dei em direção a rua e do alto do viaduto minha vida inteira passou na indesejável e vaga lembrança que ali me destinara até o impacto.
Ali, em minhas mãos fechadas, havia um pequeno bilhete, um bilhete ensangüentado pelo cair da vida. Algo que poderia desvendar a angústia e o desespero deste feito. Um pequeno poema. Uma tradução da vida, escrita pelo poeta Rimbaud. “A estrela chorou rosa no coração de teus ouvidos. O infinito rolou branco de tua nuca a teus rins. O mar orvalhou ruivo em teus seios tingidos. E o homem sangrou negro nos teus flancos paladins”. *
* Citação do poema “A estrela chorou rosa” de Arthur Rimbaud